Cruz e Eucaristia – Amor ao Extremo

 

Por Ana Maria Bueno Cunha

A criação é obra do amor. Certamente, antes da Encarnação do Verbo, o homem podia duvidar que Deus o amava com ternura; porque, a rigor, a verdade desse fato, surpreendente e incrível, não era coisa que podíamos compreender na ordem natural. Mas depois que Ele nos revelou o seu segredo numa epifania de sangue, depois da morte de Jesus Cristo, quem poderia duvidar disso? Agora que a luz iluminou o nosso caminho compreendemos que, em todas as partes, Ele nos envolve com Seu amor irresistível. (Santo Afonso de Ligório – A prática do amor a Jesus Cristo – Editora Santuário – Ano 2002)

 

Quanto mais estudamos a doutrina de Cristo e as palavras dos Santos que morreram por amor a Ele, mais entendemos que nossa santidade, aliás, toda nossa santidade e perfeição, consiste em amar nosso Redentor e Salvador, Jesus Cristo. O amor a Deus consiste na caridade que é o vínculo da perfeição e esta conserva todas as virtudes que fazem um homem perfeito.

Santo Agostinho já dizia: “Ama e faz o que queres“. Se amamos a Deus, evitamos tudo que Lhe desagrada e buscamos solidamente todo bem que é fazer de fato, tudo que Lhe agrada. A história mostra, assim como toda criação e sobretudo cada um de nós, que Deus nos amou primeiro e tudo fez para demonstrar este amor eterno. Mas Ele, num designo de pura bondade, não se contentando com tudo isso, deu-nos, para cativar nosso amor e compreendermos o Seu amor, Seu Filho único e amado. Afinal, Deus que criou tudo do nada, e nos deu tantos dons, ao ver-nos mortos sem sua graça santíssima, levado por um amor excessivo, enviou este Filho para morrer por nós. “Mas Deus que é rico em misericórdia, pelo excessivo amor com que nos amou, quando ainda estávamos mortos por nossos pecados, nos vivificou juntamente com Cristo” (Ef 2,4-5)

Se Deus não poupou Seu próprio Filho, como não nos dará com Ele todas as coisas? (cf. Rm 8,32). O Filho, por amor, deu-Se a nós por inteiro, e para tanto Se revestiu de carne – O Verbo de Deus se fez carne – para nos remir da morte eterna, recuperar a graça divina, o paraíso perdido. Eis aqui um Deus aniquilado! “Esvaziou-se a Si mesmo e assumiu a condição de servo tomando a semelhança humana” (Fl 2,7)

Jesus foi servo na dor, porque sem morrer nem sofrer, podia muito bem nos salvar. Mas não! Escolheu uma vida de aflições e desprezos e uma morte cruel e vergonhosa. Morreu numa Cruz, destinada aos criminosos: “Humilhou-se ainda mais e foi obediente até a morte e morte de Cruz” (Fl 2,8). Jesus escolheu morrer e sofrer simplesmente para mostrar o Seu infinito amor pelos pecadores e o desejou ardentemente, quando assim se expressava: “Devo receber o batismo, e quanto o desejo até que ele se realize!” (Lc 12,50). Por isso a caridade de Cristo deve nos constranger e deve nos obrigar mesmo amá-Lo. Como nos diz São Francisco de Sales: “Este sofrimento e morte de Cristo não é como que ter nosso coração debaixo de uma prensa?” (Tratado do amor de Deus). O que nos leva a compreender que devemos morrer para qualquer outro amor para viver no amor de Cristo.

Que loucura fez Deus diante da humanidade para se expor e morrer assim? Que vergonha para Sua grandeza. Quem fez isso? Pergunta São Bernardo. E responde: Foi o amor, que esqueceu sua dignidade (Tractatus de caritate). É que o amor quando quer se fazer conhecido, não leva em conta aquilo que mais convém à dignidade da pessoa que ama, mas o que mais condiz manifestar-se à pessoa amada.

Se a fé não nos garantisse, quem poderia crer que Deus onipotente, Senhor de tudo, quis amar tanto os homens, parecendo até ficar fora de Si, por amor de nós? São Lourenço Justiniano dizia: “[/i]Vimos a própria sabedoria, o Verbo Encarnado enlouquecido por excessivo amor pelos homens[/i]” (Sermo im Nativ. Domini n. 4). Devemos compreender que a origem do amor de Jesus Cristo para com os homens é sua caridade para com Deus. Ele mesmo disse aos Seus discípulos na Quinta-feira Santa: “Para que o mundo saiba que amo o Pai ‘levanta-vos e vamos’“. Aqui também está a fonte de nosso amor, amar a tudo e a todos, mesmo nas dificuldades, por amor à Deus, que merece ser amado por tudo que nos fez. Todos os sofrimentos que Cristo se impôs para nos mostrar Seu amor, são muito menores que Seu amor distribuído, pois Ele amou muito mais do que sofreu. Somente por amor, Ele sofreu daquela maneira, e este amor, superou todo o sofrimento, o que nos leva a meditar na grandeza d’Aquele que amou até o fim.

O maior sinal de amor é dar a vida pelos amigos, e Jesus o fez; e este amor, quando se dá a conhecer, faz as pessoas saírem de si e ficarem estarrecidas, e por isso muitas daquelas que compreendem este amor, sentem afervorar-se o coração, desejam o martírio, alegram-se nos sofrimentos, tem alívio nas dores. Passeiam nas brasas como se fossem rosas, desejam os tormentos, regozijam-se com o que o mundo teme, abraçam o que o mundo detesta. Como nos diz Santo Ambrósio: Como pagar a Cristo este amor? São João de Ávila nos ajuda: “Ó grande amor, o que fizestes? Viestes para curar e me feristes? Viestes para me ensinar a viver e me tornastes semelhente a um louco? Ó sábia loucura, não viva mais eu sem Vós! Senhor, quando Vos vejo na Cruz, tudo me convida a amar: o madeiro, a vossa pessoa, as feridas de Vosso corpo e principalmente o Vosso amor. Tudo me convida a Vos amar e a não me esquecer mais de Vós” (Trattati del SS. Sacramento dell’Eucaristia).

Diante de tudo isso, devemos buscar meditar Sua paixão, pois é um poderoso meio de obter o perfeito amor a Jesus Cristo. Esta devoção nos consola, nos anima e nos enche de esperança e forças de lutar. Santo Agostinho nos diz: “Vale mais uma lágrima derramada ao lembrar da Paixão, do que o jejum e água em cada semana“.

Santo Tomás de Aquino, Doutor e mestre da Igreja, auxilia quem deseja chegar ao perfeito amor de Cristo e para isso nos mostra os meios adequados: Recordar continuamente dos benefícios divinos, gerais e particulares. Considerar a infinita bondade de Deus que está sempre nos fazendo o bem. Sempre nos ama e procura ser amado por nós. Evitar com cuidado tudo que O desagrada, por mínimo que seja. E por fim, renunciar a todos os bens sensíveis deste mundo: riquezas, honras e prazeres dos sentidos.

Um dia aconselharam a São Francisco de Assis, já doente, a ler um livro piedoso. Ele respondeu: “Meu livro é Jesus Crucificado” e disse: “Quem não se enamora de Deus, vendo Cristo morto na Cruz, não se abrasará jamais“.

Como não se bastasse ter se tornado homem como nós e ter morrido na Cruz, Nosso Senhor, antes de deixar este mundo, quis deixar-nos a maior prova possível de Sua entrega. Ele nos deixou em memória de Seu amor nada mais nada menos que o Seu corpo, o Seu sangue, a Sua alma, a Sua divindade, Ele mesmo, todo, sem reservas. Neste dom da Eucaristia – diz o Concilio de Trento – Cristo quis derramar todas as riquezas do amor que reservava para os homens. (Sess. XIII,c,2). Ele quis dar esse presente aos homens precisamente na noite em que eles lhe preparavam a morte. Esta é a maravilhosa prova de amor de Nosso Senhor a nós pecadores, e se algum dia duvidarmos dela, tenhamos neste sacramento esta prova. Com tal garantia nas mãos, não podemos ter dúvidas de que Ele nos ama e muito!

São Bernardo chama este sacramento: “Amor dos amores“. É que este dom compreende todos os outros que o Senhor nos fez: A criação, a redenção, o destino ao Céu. Quando Jesus revelou a seus discípulos esse sacramento que nos queria deixar, eles não puderam acreditar: “Como pode Ele nos dar a comer sua carne?” Mas Jesus disse a eles: “Tomai e comei” – disse aos discípulos e por eles a todos nós, antes de morrer! Depois de dar graças, partiu-o e disse: “Isto é o Meu corpo que é dado por vós“. Este alimento não é terreno, mas veio do Céu para dar vida ao mundo. E para que todos pudessem recebe-lo, quis ficar sob as aparências de pão, este a quem todos tem acesso. As palavras de Cristo nos chamam a amá-Lo e a desejá-Lo, e elas nos levam a desejar o paraíso quando O ouvimos dizer: “Quem come a Minha carne viverá eternamente“. Também nos levam a rejeitar o mal quando nos diz: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o Seu sangue, não tereis a vida em vós“.

Santo Tomás nos ajuda a compreender o porque deste desejo divino de se estar conosco: é que os amigos, que se amam de coração, querem estar unidos de tal modo que formem uma só pessoa. Deus não só Se dá a eles no Reino eterno, mas já neste mundo Se deixa possuir pelos homens na união mais íntima possível. Ali – como nos diz Santo Afonso de Ligório – Ele está como atrás de um muro nos olhando e nos ajudando, até que chegue o dia, no paraíso, em que O veremos face a face. Devemos, portanto, estar certos de que uma pessoa não pode fazer nem pensar fazer coisa mais agradável a Jesus Cristo, do que comungar com as disposições convenientes a tão grande hóspede. Assim se une a Cristo, pois esta é a intenção do Senhor. Fiquemos atentos a isto: disposições convenientes e não dignas, porque se estas fossem exigidas, quem poderia comungar? Só um outro Deus seria digno de receber um Deus. Basta que ordinariamente falando, devemos comungar em estado de graça e com vivo desejo de crescer no amor a Jesus Cristo. O Pai tudo colocou nas mãos do Filho e este quando vem até nós traz consigo imensos tesouros de graças.

O Concílio de Trento nos ensina que a comunhão é o remédio que nos livra dos pecados veniais, das nossas faltas cotidianas e nos preserva dos mortais (Sess. XIII,c.2). Diz-nos que somos livres das falhas cotidianas porque, segundo Santo Tomás, por meio deste sacramento, o homem é estimulado a fazer atos de amor e por eles se apagam os pecados veniais. Somos preservados dos pecados mortais, porque a comunhão nos confere o aumento da graça que nos preserva das faltas graves (Summa Theol. 3p,q.79,a.4).

Sobre isso escreveu Inocêncio III: “Jesus Cristo com Sua Paixão nos livrou do poder do pecado, mas com a Eucaristia nos livra do poder de pecar. Além disso, este sacramento inflama de modo especial as pessoas no amor de Deus“.

Por fim, somos de fato felizes pelo Senhor não nos ter deixado na ignorância, o que nos impele a amá-Lo sempre, tendo confiança de que Ele colabora conosco, podemos dizer a Ele: “Em Vossas mãos entrego meu espírito, salva-me Senhor, Deus da verdade“. Esta verdade que nos auxilia a recuperar a esperança do perdão e da salvação eterna. Que mistérios de esperança são para nós a Paixão de Cristo e o Sacramento da Eucaristia! São Paulo nos exorta: “Aproximemo-nos com confiança do trono da graça a fim de conseguir misericórdia e alcançar a graça de uma ajuda oportuna“. Este trono é a Cruz de Cristo e a fonte que jorra abundantemente é a Eucaristia. Puro dom de Deus!

Minhas Meditações dos Escritos de Santo Afonso de Ligório – Fonte: A prática do amor a Jesus Cristo – Editora santuário – Tradução Pe. Gervásio Fabri – Ano – 2002.

CUNHA, Ana Maria Bueno. Apostolado Veritatis Splendor: CRUZ E EUCARISTIA – AMOR AO EXTREMO. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/5655. Desde 27/03/2009.
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